A figura do Analista de Performance Tática tem ganho importância crescente no futebol actual dentro de (Treinador/Analista), ou até de forma mais externa à equipa técnica (membro de Departamento de Observação e Análise), e tal sucede porque os tempos do focar apenas no “Nós” no alto rendimento já lá vão (refere-se ao contexto do futebol profissional). Agora queremos contextualizar o “Nós” vs. “Eles”, e já que é impossível aos Treinadores de uma equipa técnica “varrerem” todo o trabalho necessário de preparação colectiva e individual nas diferentes dimensões do jogo, acaba(ou) por se criar espaço para o Analista de Performance Tática intervir na produção de conteúdo referente ao “Nosso Jogar” e ao Adversário.

Dentro de cada equipa técnica (e Departamento de Observação e Análise) existem as suas próprias sinergias e funções atribuídas, várias formas de organizar/sistematizar o trabalho do Analista estão em cima da mesa e provavelmente a forma mais comum no Alto Rendimento em Portugal acaba por utilizar o Analista essencialmente para o focar neste pilar do Adversário, sendo que a análise da própria equipa também será feita pelo Analista, mas o Treinador Principal e restante equipa técnica também a acabam por fazer e portanto o peso relativo do Analista nesse pilar acaba por ser sempre importante (porque terá sempre de produzir material para a equipa técnica, poderá é não ter tanto espaço de intervenção ou criação) mas de menor pendor quando comparado com a sua relevância na análise do Adversário, porque a equipa técnica, vendo mais ou menos o adversário, deverá ter sempre como foco principal aquilo que é o trabalho e gestão da sua equipa de forma mais egocêntrica, o “Nós”.

Já quase todos os treinadores têm noção da importância do Analista no processo, não quer dizer que saibam efetivamente o que fazer com ele. Vários são os casos em que do material produzido, o “sumo” não é extraído da melhor forma, ou sendo o “sumo” extraído depois a operacionalização é débil, acabando por fragilizar o processo. Mais comuns são os casos em que a equipa técnica não sabe tão pouco aproveitar todas as ferramentas tecnológicas ao seu dispôr, quer seja por desconhecimento dos seus benefícios ou por simples desconforto no domínio que terão de ter sobre as mesmas. Não é segredo nenhum que o Analista Especializado (de Departamento ou membro integrante da equipa técnica) e os Departamentos de Observação e Análise são ainda domínios recentes no futebol moderno, com muito espaço de crescimento ainda… e os clubes Portugueses que o digam. Ainda há clubes de 1ªLiga sem Departamentos de Observação e Análise, e os que têm em larga escala são constituídos por poucos elementos (chega a haver apenas 1 em alguns clubes) o que parece ser algo inconcebível tendo em conta a importância do conhecimento e vantagens competitivas que o Analista pode aportar, tornado o trabalho de todos mais eficiente. Também quantos clubes têm Video Walls ou câmaras instaladas nas suas academias/local de treinos e estádios com sistema de tracking? Pouquíssimos é a resposta, e vocês se forem astutos até poderão perceber quem tem…

A boa notícia é que estando esta área muito pouco evoluída em termos de recursos humanos (porque com departamentos curtíssimos, ou 1 pessoa inclusivamente para produzir todo o conteúdo), materiais e financeiros…tem tudo para crescer e se as equipas técnicas forem inteligentes e os dirigentes também esta área irá crescer como pode e deve em Portugal e no mundo.

Relatório

https://drive.google.com/file/d/1vvAu_ojYnfmMtIsoOGbjdOu-KEwyFIyL/view?usp=sharing_eip&invite=CLm2gZMH&ts=6022cd68

Porque entre variados ganhos em produzir este conteúdo escrito, um dos quais destaco é a importância para várias equipas técnicas que o acabam por levar consigo para o treino, servindo de meio auxiliar para trabalhar o Plano Estratégico. É essencialmente através do relatório que a interpretação mais detalhada do Analista é transmitida à equipa técnica, porque mesmo que a equipa técnica não queira plano estratégico no relatório, ou muitas opiniões, a verdade é que o Analista ao fazer o Relatório e ao julgar/apreciar comportamentos do adversário tendo em conta o contexto dos mesmos, estará sempre a enviesar já um pouco quem o lê e portanto da dar a sua ideia. Fica também a nota para todos que a Observação e Análise é mais do que identificar padrões, é Identificar Contextualizando-Antecipar-Solucionar e quem não for capaz de o fazer é muito menos analista. Muitos analistas produzem conteúdo baseado numa identificação de padrões desprovidos de contexto, não antecipando os cenários e sem sequer terem a capacidade para julgar os comportamentos… e portanto também sem o talento para encontrar respostas ou soluções.

A análise vídeo é a mais poderosa das formas de passar o conteúdo, pode ser feito vídeo com ou sem edição e isso é algo que acaba por ser o líder do processo a decidir, sendo que cada uma destas formas de apresentação de vídeo tem as suas vantagens e aspectos menos positivos quando comparadas uma com a outra.
Também é frequente vermos analistas que só produzem vídeo e não relatório, quer seja por limitações de tempo ou por puro desconhecimento…mas a verdade é que aliando estas duas formas o processo acaba por ter ganhos claros como já referi anteriormente, visto que o Relatório é material de e para a equipa técnica, e o Vídeo sendo também para a equipa técnica acaba por ser essencialmente para os atletas. O ideal é juntar estas duas formas de conteúdo sobre o adversário.

Ainda no que ao Vídeo diz respeito, apresentei-vos em cima a versão Longa/Curto do vídeo a apresentar aos jogadores (neste caso com edição). Podemos partir em 3 dimensões: Vídeo Longo, Vídeo Curto e Vídeo Micro.

Vídeo Longo resultante da codificação dos jogos do adversário, com um total de 20 a 25 min com todos os momentos do jogo.
Vídeo Curto é consequência de filtragem (feito em conjunto com equipa técnica) do Vídeo Longo e acaba por resultar em cerca de 8 min (mais coisa, menos coisa) que serão apresentados aos jogadores.
O vídeo micro é um vídeo de aproximadamente 2 min que poderá ser feito relembrando comportamentos do adversário e comportamentos executados no treino aquando do Plano Estratégico, para reforçar comportamentos pretendidos e antecipar os cenários como é óbvio.
Existem várias formas de organizar este processo de filtragem de informação e de apresentação da mesma (Momentos partidos ou juntos? ET´s à parte?),

Podem observar uma forma utilizada com competência no futebol profissional e com conhecimento de causa, embora ainda assim prefira uma organização ligeiramente diferente onde OO-TD, OD-TO e ET´s são apresentados de forma isolada no dia em que os trabalhamos, embora possa e deva sofrer ajustes tendo em conta a forma e tipo de microciclo, o momento da época e dos atletas, etc…

Análise Individual

A análise individual do adversário é para mim de vital importância pelas possibilidades que nos oferece na criação de uma maior pormenorização relativamente ao colectivo adversário e as suas relações/sinergias. Desta forma, deverá ser também um meio auxiliar para aportar conhecimento sobre o adversário, e mais do que de uma perspectiva descontextualizada (se é criativo, se tem boa relação com bola ou tomada de decisão). Este tipo de análise deverá ser realizada de uma perspectiva macro (quem é este jogador nesta expressão colectiva de jogar?) oferecendo maiores possibilidades de resposta (timings de ruptura? movimentos de dentro para fora? Timings e Movimentos de apoio? Se fecha bem triângulo defensivo? entre infindáveis exemplos).

Esta Análise Individual poderá auxiliar na análise colectiva Vídeo e Relatório, mas está claramente direccionada para os nossos jogadores. Não deverá ser entregue a análise do jogador adversário ao nosso jogador se o mesmo não se sentir confortável em recebê-lo. Deverá partir da necessidade dos nossos atletas quererem estar mais e melhor preparados antecipando o cenário de jogo, e portanto acho essencial respeitar o princípio da individualidade neste caso, sob pena de estarmos a passar conteúdo que poderá inclusivamente ser prejudicial para alguns jogadores.

Incluí a análise para o nosso GR dos Penaltis e Livres Diretos dos adversários neste tópico pela natureza similar do propósito de antecipação de cenários, bem como as ações ofensivas para o GR que poderão ajudá-lo a controlar profundidade, cruzamento, 1×1 ou estar melhor preparado nas ações de defesa da baliza. Este conteúdo para o GR acaba por ser produzido para o treinador de GR, que poderá ainda filtrar informação e apresentar o conteúdo de forma mais pormenorizada e ajustada pela sua função específica.

“Não faz sentido separar o Modelo de Jogo do Plano Estratégico. O Modelo deverá ser aberto…baseado em princípios, subprincípios e sub-sub princípios ou como quiseres chamar e organizar. Se for aberto estarás mais próximo de interagir com o contexto, se for fechado estarás mais próximo de ter posicionamentos perfeitos desprovidos de sentido. Não digo que não haja os tais posicionamentos base…deve é existir adaptação, e por isso modelar tendo sobretudo como suporte os tais princípios que referi à pouco. Um Plano Estratégico, se bem enquadrado, ao longo da época acaba por fundir-se com o Modelo e por isso não faz sentido a sua dissociação. Ora veja, perante aquele tipo de estrutura, perante aquele cenário, perante aquele tipo de comportamentos eu já sei que procuramos sobretudo a resposta X, e isso é similar para quando antecipar o que adversário irá fazer contra ti. Se fores inteligente e coerente é isto que farás, e portanto o Plano Estratégico não é mudar tudo… mas sim encarar aquele adversário com os nossos princípios mas num contexto muito específico, e perante cenários similares de estruturas e comportamentos que o adversário nos apresenta nós vamos respondendo de forma coerente ao longo da época, tornando-se Modelo…Modelo abrangente, complexo e aberto assente em princípios. O que acaba por ser realmente algo mais agressivo na palavra Estratégia, é quando existem alterações pontuais, mas mínimas num ou outro comportamento individual/coletivo para abordar o adversário, mas sem matar os nossos princípios e linhas mestras.
Idiotice essa…do Modelo de Jogo e Plano Estratégico ou Modelo de Jogo vs. Plano Estratégico”

Autor: João Cancela