Sábado, dia 12 de Outubro de 1996, Santiago Compostela, 7ª Jornada da Liga Espanhola 1996/1997, jogo entre o S.D. Compostela e o F.C. Barcelona:

Minuto 36 – Ronaldo Nazário de Lima aproveita atrapalhação a meio-campo de dois adversários, fica com a bola e arranca para a baliza adversária. Pelo caminho ficaram 5 adversários que, com empurrões e puxões, o tentaram derrubar, sem sucesso. A bola entra junto ao canto inferior do poste direito e o golo entrou automaticamente nos livros dos mais bonitos de sempre, levando a que o seu treinador, sir Bobby Robson, levasse, inclusivé, as mãos à cabeça de espanto perante o que tinha acabado de assistir. 15 segundos de força, potência, velocidade, técnica, objetividade e frieza que me ficaram na memória para sempre daquele que naquele momento era o melhor jogador do mundo.

Ora, episódios destes tendem a ser cada vez mais raros no futebol actual. São poucos os atletas que individualmente são capazes de decidir jogos e este facto pode estar relacionado com a formatação e, por vezes, castração a que são sujeitos desde muito cedo no seu processo de formação desportiva. A tendência é de que jogadores como Maradona, Ronaldo, Messi, Ronaldinho, Neymar ou Cristiano Ronaldo tendam a desaparecer. No entanto, devemos todos, enquanto agentes desportivos olhar para os meios que temos para os preservar e, dessa forma, dar-lhes liberdade em treino e jogo, para errar, para se divertirem, para arriscar, para brincar – tudo características inerentes a um processo evolutivo.

A performance dos atletas pode ser influenciada pelos comportamentos do treinador. A forma e o estilo de exercer o poder e a liderança que caracteriza o treinador no relacionamento com os seus atletas podem ter um papel essencial sobre o rendimento dos mesmos. A função mais importante para um treinador é apoiar os atletas a evoluírem e a melhorarem as suas capacidades atléticas desde o domínio de habilidades básicas em iniciantes – nos domínios técnico, táctico, social e psicológico – ao desenvolvimento sequencial dos jogadores ao longo do processo de formação.

Normalmente, as funções realizadas pelos treinadores apoiam-se no comportamento de liderança e estimulação eficaz ao atleta com o objetivo de alcançar ações apropriadas á realização de objetivos, em situações de treino e de competição. A situação, o histórico e as características do treinador e dos seus atletas determinam o comportamento de liderança adoptado.

Perante este cenário podemos dividir os treinadores de acordo com três estilos de liderança: autocráticos, que são aqueles que única e exclusivamente tomam todas as decisões e os atletas apenas têm de aceitá-las e segui-las; negligentes, que são os treinadores que exercem escassa influência sobre os atletas e estes acabam por se abster da tomada de decisão e os treinadores cooperativos, que são os treinadores que compartilham a tomada de decisão com os atletas.

Infelizmente, hoje em dia, verificamos que muitos treinadores de formação adoptam uma liderança autocrática, isto é, única e exclusivamente controlam as acções dos seus atletas com um simples objetivo – ganhar jogos. A performance qualitativa é menosprezada perante o resultado quantitativo. Os atletas executam o que o treinador lhes dita (e até podem executar bem). Mas será que esses atletas percebem porque é que o fizeram? Será que vão evoluir dessa forma? Num futuro, com outros treinadores, serão estes jogadores capazes de responder a novos problemas no jogo?

Na minha opinião não! Se alguém obrigasse Messi a jogar a um ou dois toques aos 7 anos hoje não seria o melhor do mundo, não foi com o treinador junto à linha lateral a gritar o que fazer que surgiu o golo de Maradona no Mundial de 1986, não foi a contornar bases que Ronaldo aprendeu a fintar, não foi a correr à volta do campo que Cristiano ficou rápido e forte, foi a prática, horas e horas a jogar! Algo que é retirado às crianças dos nossos tempos, que já passam demasiadas horas nas salas de aula, que abdicam de jogar futebol para poderem jogar nos seus ipad’s nos intervalos e que, ao fim do dia, ainda vão para o treino para se descontraírem e divertirem e o treinador ainda lhes retira essa liberdade porque devem jogar como ele quer e manda.

Para contrariar estes métodos, no meu entender, olhemos então para os grandes craques do futebol – Pelé, Maradona, Ronaldo, Futre ou Messi por exemplo. Existe um denominador comum a todos eles – a rua. Foi a rua o primeiro palco dos grandes mágicos da bola, ora em campos de várzeas ora nos ringues dos seus bairros, com pedras para contornar e fintar ou a jogar com jovens mais velhos. Apareciam de manhã e só se retiravam ao anoitecer. Horas seguidas de prática, experiências, tentativas e erros sucessivos que os fortaleciam e os catapultaram mais tarde para os maiores estádios do mundo.

Assim, o treinador de futebol, deve trazer para o seu processo de treino as condições da rua dando aos atletas a liberdade para decidirem o que bem entenderem – liderança cooperativa.

O contexto permitirá uma evolução harmoniosa e desamarrada por parte dos atletas, com o devido acompanhamento dos seus treinadores, tanto no treino como no jogo.

 
Aplicações Práticas:

Portanto, o papel do treinador é o de facilitar o reconhecimento ao atleta dando sugestões positivas para um bom desempenho. Acima de tudo, a qualidade da informação dada aos atletas pode ser melhorada através de seis princípios:

1. Comentando a forma mais eficaz de realizar a acção;

2. Ser específico, e não geral;

3. Ser construtivo, não destrutivo;

4. Dar o feedback o mais cedo possível;

5. Certificar-se de que o atleta entende a informação;

6. Usando o feedback correctivo, ou seja, como melhorar.

Os exemplos específicos de interacções entre os treinadores de futebol e os atletas são incluídos para ilustrar estratégias que podem ser aplicadas, tais como fazer perguntas, seleccionar pontos-chave ou criar situações de descoberta guiada.

Quando o atleta recebe a informação qualitativa do treinador tem uma noção vaga já que está a ser informado somente de que ocorreu o erro, e não fica a saber sobre a direcção ou sobre a quantidade desse erro. Como resultado, a correcção tenderá a ser pobre e o grau de aprendizagem lento. Ao contrário, quando o feedback é quantitativo e adequado ao nível do aprendiz, a aprendizagem é facilitada. Outro factor importante ao actualizar os recursos de feedback é saber em que momento utilizá-lo e com que frequência.

Em relação á execução da habilidade, o feedback poderá ser terminal, apresentado ao praticante depois da execução, ou concomitante, fornecido durante a execução.

Preferencialmente, deve-se utilizar a instrução terminal, pois este pode ser eficaz em quase todas as situações de aprendizagem motora. As informações concomitantes auxiliarão o praticante a aprender a realizar o movimento e a utilizar a informação do treinador durante a execução mas retirará autonomia ao atleta na execução técnica.

Permitir que os jogadores que acelerem, fintem, rematem, errem é essencial para a evolução dos atletas, mesmo que não sejam as melhores decisões naquele momento. O treinador assume, então, o papel de clarificar ao jogador de que forma pode melhorar e adequar a sua decisão. Deixá-lo errar, tentar perceber o que o levou a decidir daquela forma e procurar através das estratégias previamente delineadas de que forma se pode melhorar.

Em conclusão, treinadores com um estilo de liderança cooperativa estarão sempre mais próximos de ajudar a potenciar atletas mais criativos, inteligentes e competitivos, pois ao longo do tempo vão acumulando cada vez mais recursos para responder aos problemas que o jogo lhes coloca, são constantemente convidados a pensar no que estão a fazer, a entender o contexto ou a antecipar o que poderá acontecer. Desta forma estaremos sempre mais próximos de que momentos como os de Compostela não sejam apenas memórias de uma noite fria de 1996 mas realidades nos nossos campos de futebol por esse mundo fora, sempre, por um futebol bem jogado!