No passado, as funções de um médio-defensivo de futebol eram, como o nome indica, meramente defensivas, os chamados “trincos”, destruidores de jogo, jogadores fortes na marcação individual, impetuosos nos duelos aéreos ou à flor da relva, que nos momentos de sufoco se juntavam aos centrais quando se tornava imperativo defender um resultado, jogadores que mais parecia que tinham saído de um campo de batalha para um campo de futebol.

Olhamos para os livros de História e lembramo-nos de nomes como os de Deschamps, Dunga, Matias Almeyda, Simeone, Jeremies ou Roy Keane, citando apenas alguns dos que ainda me lembro de ver jogar desde meados dos anos 90. Jogadores que se evidenciavam pela entrega e vigor com que disputavam cada lance, pela capacidade de liderança da equipa que demonstravam dentro do campo, sendo o braço-direito do treinador nas 4 linhas. A parte estética era pouco relevante nas suas funções.

Numa entrevista dada há uns anos atrás, Pedro Martins, ex-médio de clubes como Sporting CP, Vitória SC ou FC Alverca e actual treinador do Olimpyacos (Grécia) afirmou, num tom humorado, que Quinito, seu treinador no Vitória SC, pedia-lhe apenas que, na sua posição, fosse um “rabo-de-vaca”. Porquê “rabo-de-vaca”? Porque a sua única função era limpar tudo o que lhe aparecesse à frente.

Os tempos avançaram e o futebol evoluiu ao mesmo ritmo. Das trincheiras futebolísticas dos anos 90 passámos para relvados bem tratados para o espectáculo do futebol, um futebol mais bem praticado e perfumado. Apoiadas nas ideias de jogo de Rinus Michel, dinamizadas mais tarde pelo seu discípulo Johan Cruyff e ainda mais tarde actualizadas por Pep Guardiola, as equipas começaram a praticar um jogar mais apoiado, mais sustentado, com linhas mais próximas, viajando sempre junta no transporte da bola desde a sua área ao reduto contrário do adversário.

Com esta evolução futebolística, as funções e características dos médio-defensivos alteraram-se drasticamente nos últimos 25 anos. Para além das naturais funções defensivas inerentes à posição, os médios-defensivos desempenham um papel essencial na organização ofensiva de qualquer equipa que pretenda dominar o jogo, com e sem bola como iremos perceber mais à frente.

Hoje em dia, observamos várias equipas que optam por um jogo de posse, com mecanismos, dinâmicas e sistemas tácticos diferentes mas com objetivos comuns: dominar o jogo, ter o máximo de tempo possível a bola, garantir segurança desde a fase de construção, garantir várias soluções ao portador da bola e viajar juntos em cada pedaço do campo.

Olhamos para a posição de “6” e vemos jogadores como Busquets, Fabinho, Rodri, Jorginho, Verratti ou Fernandinho, jogadores inteligentes na busca do espaço vazio, a interpretar bem onde poderão garantir superioridades, numéricas ou espaciais, com capacidade de passe curto e longo, visão para romper linhas de pressão com uma tomada de decisão ou simplesmente equilibrar a equipa de forma a prevenir o momento da perda.

Então, no que às características de um médio-defensivo diz respeito verificamos denominadores comuns nos jogadores acima referidos:

1) Interpretar os espaços vazios para ser solução ao portador da bola – mostrar para jogar, ser sempre solução, ser dinâmico, intenso, vivo;

2) Passe – a capacidade de com um passe conseguir tirar a bola de uma zona de pressão, com um passe romper linhas de pressão, capacidade de ligar curto, pelo chão mas também a capacidade de ver longe e variar o centro de jogo, libertando a bola para zonas com mais espaço;

3) Interpretar a pressão do adversário e verificar onde é que poderá garantir superioridade/vantagem na fase de construção – numérica, quando, por exemplo, o MD baixa para entre os centrais para garantir uma situação de 3×2, ou espacial, quando garante uma linha de passe vertical aos centrais nas costas da pressão adversária. Sendo um elemento essencial na 1ª fase de construção, o MD é muitas vezes pressionado por um adversário. Assim, este deve ter a capacidade de mexer muitas vezes a cabeça, mexer pescoço, ler por cima do ombro, interpretar de onde vem a pressão para a seguir poder tomar uma decisão consoante estes fatores. Na inviabilidade de ser solução para os jogadores do sector mais recuado, deve libertar espaços para outros colegas aparecerem nesse espaço;

4) Jogar de perfil – esta virtude permitirá sempre interpretar o que acontece no centro de jogo e ler o que acontece nos sectores mais avançados do campo, antecipando a sua decisão antes da bola chegar aos seus pés;

5) Comunicação – seja ela vocal ou gestual. Ocupando uma posição central no campo, o MD acaba por ter uma visão panorâmica de todo o campo, fator que lhe permite ser um elo de comunicação com praticamente com todos os companheiros de campo, instruindo ou sinalizando espaços vazios, homens livres ou apenas ligações limpas para avançar no terreno;

6) 3º Homem – a dinâmica do 3º homem procura ser uma forma de criar perigo e ultrapassar opositores através do espaço interior com a intervenção de 3 atletas, procurando ficar com a bola de frente para os defesas. Assim, em equipas de posse o MD sabe que será sempre 3º homem dos laterais da equipa e vice-versa na fase de construção, ou dos médios-interiores na fase de criação;

7) Cobertura Ofensiva – quando a equipa se encontra instalada no meio-campo ofensivo, o MD desempenha um papel essencial na manutenção da posse de bola, garantindo sempre uma solução atrás aos seus companheiros para tirar a bola de uma zona de pressão ou para variar o centro de jogo para zonas do campo com mais espaço para jogar;

8) Equilíbrios – uma das principais características das equipas grandes que jogam em posse é a capacidade de prevenir o momento da perda de bola quando se encontram em organização ofensiva. Assim, o MD desempenha um papel essencial mantendo-se sempre perto dos jogadores que jogam mais à frente no terreno, mantendo a equipa junta, unida, ligada para que no momento da perda possam reagir rapidamente e recuperar a bola o mais longe da sua baliza.

Em suma, para além de tentar marcar e gerir o ritmo do jogo, sempre da forma que mais lhe convém, o médio-defensivo tem obrigatoriamente de ter boa visão panorâmica de jogo, segurança no passe e cultura táctica.

É por tudo isto, que um médio-defensivo passou a ser um jogador de grande importância no processo ofensivo de uma equipa. Um jogador que actue nesta posição, mas que não consiga produzir este tipo de acções ou que demonstre este tipo de características, dificilmente terá sucesso numa equipa que defenda este modelo de jogo. Um médio defensivo hoje em dia é sinónimo de talento e classe, criatividade e inteligência, um atleta de superlativa importância no jogo da sua equipa. São as consequências do futebol moderno. Chama-se a isto evolução, de “rabos-de-vaca” a “barómetros” do futebol…