Treinar ou Formatar o Guarda-Redes

1. O Treinador

Poderia começar este tema abordando todas as componentes do treinador, mas não seria ético, pois falar sem primeiro conhecer o contexto e a finalidade dos trabalhos elaborados pelos meus colegas de profissão.

A. A formação do treinador de guarda-redes.

I. Quem é aquele ser que perde tempo? Estuda, analisa e procura entre várias maneiras, passar o conhecimento de uma posição tão específica no campo, poderíamos considerar que o guarda-redes é um privilegiado pois tem um treinador só para ele.

II. A formação do treinador do treinador de guarda-rede é complexa, pois é alguém que, para além da sua formação enquanto treinador específico, tem também a obrigatoriamente ter a formação de treinador, tem de saber de preparação física, de fisiologia, de psicologia, é alguém que muitas vezes é visto como aquele que chuta a bola, ma será assim mesmo?

2. Treinar ou Formatar

“Uma coisa que o futebol me deu foi ensinar a gerir situações e como aproveitar o dia a dia, Muitas vezes não paramos para perceber que o mais importante é ser feliz e desfrutar…” – André Gomes (Everton FC)

Pegando na frase do jogador André Gomes, o que podemos retirar? que muitas vezes queremos alcançar o resultado e esquecemos o essencial do jogo.
O que nos leva a treinar? O que nos leva a querer melhorar os nossos atletas?, muitos se questionam se vale apena ensinar, perder tempo, quantas vezes apanhamos atletas que o seu desenvolvimento é tardio , quem já cometeu o erro de por de lado ou simplesmente não ter tempo com esses atletas.
A ideia de treino não é complexa, nós é que tornamos complexo, nós é que inventamos, redesenhamos exercícios, preparamos o que pretendemos, mas muitas vezes não entramos na cabeça do atleta.

Treinar ou Formatar, parece uma frase feia, até soa mal nos nossos ouvidos, mas sim, muitas vezes cometemos o erro na formação do atleta não lhes damos espaço de opinião, não questionamos o atleta sobre o exercício, ou sobre o jogo, queremos apenas que executem o que aprenderam
O atleta não é uma máquina que se carrega no botão on/off e faz o que é imposto por automatismos que lhe são inseridos no seu “software”, o atleta é alguém que como nós está sempre em evolução constante, devemos muitas vezes dar a eles a oportunidade de intervir de opinar, de refletir connosco os exercícios e os jogos , segundo Sun Tzu em arte da guerra diz : “ Trate seus homens como seus filhos e eles o seguirão aos vales mais escuros, Trate-os como filhos queridos e eles o defenderão com o próprio corpo até à morte”.

O treino de guarda-redes tem sido cada vez mais posto à prova, tem-se notado uma massificação em relação ao treino/negócio, cada vez mais se exige fruto da tal massificação e por vezes a frase Treinar ou Formatar ecoa nas cabeças, como sabemos podemos dividir em duas classes distintas o treino do guarda-redes desde a sua formação ao seu processo de maturação:
Patamar de iniciação – que pode iniciar dos 6 até aos 12 anos em que temos aqui um conjunto de fatores que não podem ser ignorados, contato com a bola, visualizar o espaço e disfrutar sem robotizar, mas muitas vezes esquecido pela tal frase que ecoa na cabeça, estamos a falar que é os primeiros passos.
Patamar de Aperfeiçoamento – que se inicia dos 12 até ao ultimo ano de formação, como no indica aperfeiçoamento ,não robotização do atleta , ensinar o jogo , a ler o jogo , perceber o caos , entender comportamentos , a parte técnica sempre presente, nesta fase muitas vezes treinamos , mas inconscientemente formatamos, por diversas razões .

3. O Guarda-Redes
O guarda-redes, sendo uma posição tão especifica e exigente, cabe a nós enquanto treinadores de guarda-redes, transmitir, educar, formar e munir os atletas das valências necessárias para a sua evolução enquanto atleta e cidadão.
Mais específico na formação onde temos que ter a sensibilidade e saber cativar o atleta pela posição e modalidade.
O crescimento desta posição especifica deve-se ao fato de cada vez mais ser solicitada pelos treinadores como parte fundamental da construção do seu jogo ofensivo, pelo jogo que cada vez é mais rápido e o guarda-redes tem um papel de destaque assim como um ponta de lança.
Mas mais uma vez esta posição sofre com o Treinar ou Formatar, pois até à fase de maturação o guarda-redes vai passar por um processo de transformação, esse processo muitas vezes negligenciado e esquecido, pois todos queremos ganhar, mas queremos formar e criamos expectativas que muitas vezes acabam em frustração para o atleta.

Identidade do Guarda-Redes da formação ao Aperfeiçoamento
a) Fomentar o interesse pela posição
b) Adaptar o treino às diferentes etapas de aprendizagem
c) Capacitar os guarda-redes com capacidades técnicas/táticas e psicológicas
d) Proporcionar uma boa relação com a bola
e) Aprendizagem dos princípios básicos e técnicas
f) Combinação de tarefas analíticas com jogos (Conceito de aprender brincando)
g) Desenvolvimento coordenativo/motor guarda-redes.
h) Princípios da técnica de base
i) Progressão dos gestos técnicos específicos
j) O jogo – Aspetos técnico/tácitos
k) Exercícios com exigência (Complexidade)ao nível da percepção e tomada de decisão
l) Novos desafios técnico-táticos.

Conclusão
Em conclusão ao tema, fica sempre um pensamento no ar, que será que a modernização de conceitos estão a ser aplicados? seremos nós treinadores, vítimas ou cúmplices dos modelos que muitas vezes imperam em clubes e academias, a capacidade que temos em pensar por nós será que é sobreposta por outros valores? deixo esta questão pois cada vez mais por estes campos fora o meu sentimento mantém-se e a frase Treinar ou Formatar salta à vista quando vemos certos comportamentos, sem nunca querer julgar qualquer colega pela sua decisão, julgamos o problema pela capa e não pela raiz e isso pode levar a um pensamento desvirtuado.
Treinar ou Formatar levamos para o um campo extrajogo, extra treino, espero ter transmitido a minha visão neste pequeno artigo.